Análise: “Batman: Asilo Arkham” – Grant Morrison & Dave Mckean

O título Batman: Asilo Arkham – Uma Séria Casa em Um Sério Mundo (Arkham Asylum: A serious House in a Serious World) foi publicado originalmente nos EUA pela DC Comics em 1989 e, posteriormente, no Brasil pela Editora Abril em 1990. Esta cópia que li e fotografei para o Ilustração Livrada foi publicada pela Panini Comics em 2003. A cópia pertence ao acervo do amigo Gabriel da Fonseca e foi gentilmente emprestada.

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MORRISON, Grant; MCKEAN, Dave. Batman: asilo arkham - uma séria casa em um sério mundo. Panini Comics. Rio de Janeiro, 2003.
Editora Original: Karen Berger.
Tradução e Adaptação: Jotapê Martins e Helcio de Carvalho.
Editor: Fabiano Denardin (Oggh).
Letras: Luciana Guilarducci e Marcio Alex Sunder.
ISBN: 85-73-5117-10, 232p.

Da união entre o quadrinista Grant Morrison, famoso por seu experimentalismo e abordagens contraculturais em publicações alternativas, e o ilustrador Dave Mckean, conhecido por suas múltiplas facetas técnicas, estéticas e conceituais e amplo domínio da narrativa visual, nasce no final da década de 80, ápice do surgimento das denominadas novelas gráficas, um dos maiores clássicos das histórias do homem-morcego.

Na história, os internos do famoso Asilo Arkham (principal instituto psiquiátrico da cidade de Gotham) organizam uma rebelião, em pleno primeiro de abril, encabeçada pelo mais icônico dos vilões do cavaleiro das trevas: o Coringa. A presença de Batman é exigida como principal demanda do motim, forçando o protagonista a encarar, como parte da “negociação”, jogos insanos propostos pelo seu fatídico arqui-inimigo. Em paralelo temos contada a história da origem do asilo através do ponto de vista (psicanaliticamente traumático e violento) do psiquiatra que o fundou, o dr. Amadeus Arkham.

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A obra se consolidou como um clássico pela sua alta qualidade narrativa a partir do roteiro de Morrison que utiliza as paredes do Asilo Arkham como uma metáfora para a mente do herói, na qual os cômodos e seus principais habitantes representam os demônios de um protagonista atormentado. Aliada a ilustração sombria e aparentemente insana de Mckean (porém, muito controlada em sua linhas loucas e texturas incertas) a história toma forma assumindo uma personalidade vertiginosa e ricamente iconográfica. Os personagens são alegoricamente desenvolvidos através de simbologias ocultistas muito bem pontuadas que vão desde ícones da astrologia aos da tarologia. Não obstante, a relação desenvolvida entre estes símbolos se aliam perfeitamente às teorias da psicanálise de Jung que era, ele mesmo, um grande pesquisador do ocultismo além de um dos principais nomes da Psicologia.  Entre as principais referências desta rica obra estão O Livro Vermelho de Carl Jung e Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol (este último possui inclusive citações que funcionam como pórticos de iniciação e finalização à história).

Apesar de uma narrativa primorosa, uma das maiores críticas lançadas à obra desde sua publicação inicial é referente a total despreocupação do roteirista com a personalidade do famoso herói, uma vez que Morrison parece ignorar tudo que já foi escrito sobre Batman e o coloca tomando decisões que não condizem com o que conhecemos do mesmo. Grant Morrison vem de uma escola de quadrinistas ingleses alternativos e sua despreocupação com determinados aspectos clássicos e ruptura de estruturas parece ser parte de sua personalidade artística. No entanto, é uma crítica que deve ser levada em conta.

Os maiores pontos negativos não estão na história ou na ilustração, estas certeiras, e sim no trabalho de adaptação feito na edição brasileira. Alguns defeitos de impressão aparentemente normais para este tipo de publicação se tornam verdadeiros empecilhos da leitura quando associados ao letramento amador.

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No barbante vermelho, elemento da ilustração, um exemplo de defeito de impressão onde certas camadas de cores se desalinham com as camadas de baixo (neste caso a cor amarela desalinhada), causando a impressão de imagem embaçada ou de clones. Um defeito comum (porém chatinho) em publicações de quadrinhos deste tipo.
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A tipografia está correta e condiz com a original em inglês, no entanto, ao optar por utilizar um contorno branco nas letras, associando isto aos defeitos de impressão, temos uma quase ilegibilidade em certas partes do texto.

Ainda sobre o letramento: através da análise das imagens na galeria abaixo é possível ver como, diferente do original, a opção por um letramento automático (baseado em fontes) e preguiçoso (com alinhamento automático) muda, e muito, a intenção do texto verbal (desenhado à mão no original).

As últimas páginas da edição contam com mais um elemento, separado da história, que intensifica a densidade dos personagens: páginas do quadrinho que assumem a personalidade de cada personagem da trama através do texto e do visual, diferenciadas principalmente pelo tom (tanto no texto verbal quanto na composição visual).

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As páginas que assumem a personalidade do Batman e do Coringa, respectivamente. A tipografia datilográfica e contrastada à esquerda ressalta a justiça e a verdade próprias do herói mascarado, em confronto com uma poesia psicótica e suja escrita “à sangue” à direita, que sobrepõe uma lua (ícone do tarô tão próprio a misteriosa e volátil personalidade do coringa).

A capa é de Dave Mckean, composta por uma ilustração em técnica mista (acrílica, pastel e grafite) com uma diagramação característica do artista, marcada por uma ousadia excepcional em design: título na horizontal, no canto superior direito em branco com uma estreita sombra marcada. As iniciais do título da obra são em minúscula com tipos romanos simples, enquanto o resto do corpo das palavras asilo arkham são em maiúsculas com tipos condensados e sem serifa. Entre as letras a de cada palavra, um pequeno ícone de uma lua branca em um quadrado preto. O título dos autores segue o mesmo padrão, com a diferença que as iniciais possuem um leve itálico e a letra m coincidente nas iniciais de ambos autores está sublinhada. O subtítulo está na horizontal na mesma tipografia condensada e sem serifa do título, com exceção das palavras séria e sério, estas em tipografia fina e levemente itálica dentro de retângulos cinza, assim como a palavra batman (toda em minúscula e afastada do resto do título, na extremidade da lombada). No canto inferior, alinhada com a palavra batman na extremidade da lombada, na vertical, a logo da editora. A contracapa é composta pela continuação da ilustração de capa, possui um texto (com tipografia que segue os padrões do título) e uma letra capitular no início do primeiro parágrafo. Na lombada (em estilo americano apesar dos autores europeus) a repetição do título da obra nos mesmos padrões e apenas os sobrenomes no título dos autores emoldurados por duas luas num quadro cinza (não preto desta vez, para contrastar com o fundo escuro).

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Batman: Asilo Arkham – Uma Séria Casa em Um Sério Mundo da Panini Comics tem dimensões 17cm x 26cm todo impresso em cores com capa e contra capa em papel opaline cartonado 180g (brilhante por fora e fosco por dentro) e miolo em papel couchê 90g brilhante.

Muito obrigado pela leitura,

Pedro Balduino

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