Análise: “Coleção Agatha Christie da Círculo do Livro” – Agatha Christie

A editora Círculo do Livro é um dos casos mais interessantes sobre a história do mercado editorial brasileiro. Criada no início da década de 70 através da parceria entre a Editora Abril e uma editora alemã, funcionou em formato de clube do livro e com edições caprichadas (acabamento em capa dura, capas bonitas, projeto gráfico caprichado e design moderno) e valores modestos (um livro da Circulo custava em média Cz$ 2.500) se tornou uma iniciativa de enorme sucesso e chegou a ter até 800.000 associados em meados da década de 80. Em outra postagem me proponho a falar mais sobre a editora, seu percurso e importância na história dos livros no Brasil. Neste texto pretendo analisar três títulos da Círculo do Livro que fazem parte de uma coleção de livros da autora mais vendida de todos os tempos, a autoridade máxima dos livros de suspense e mistério, a excelentíssima Sra. Agatha Christie.

Por ser até hoje a autora mais vendida de todos os tempos, cada título que já escreveu possui uma quantidade imensa de edições com diferentes capas, diferentes projetos gráficos, versões de bolso, versões de capa dura, etc. O que me atrai nestas edições específicas da editora Círculo do Livro é que são livros muito bonitos que transmitem com elegância a essência do seu tempo. Neste texto vou analisar três livros como uma maneira de apresentar a unidade criada para o design da coleção. São eles: Os Elefantes Não Esquecem (adquiri esta cópia emprestada do acervo de uma pessoa próxima), O Caso dos Dez Negrinhos (era da coleção de um parente, agora é minha) e O Assassinato de Roger Ackroyd (ganhei do mesmo parente).

Os Elefantes Não Esquecem; Christie, Agatha. Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1976.
Licença Editorial: Editora Nova Fronteira S.A.
Tradução: Newton Goldman
Capa: Alfredo Aquino
Impressão e Acabamento: LinoArt Ltda. e Arte Gráfica Ltda.
Encadernação: Abril S.A.
Sem ISBN. 209 páginas.

O Caso dos Dez Negrinhos; Christie, Agatha. Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1974.
Licença Editorial: Editora Globo S.A.
Tradução: Leonel Vallandro
Capa: Alfredo Aquino
Impressão e Acabamento: São Paulo Editora S.A. e Editora Bisordi Ltda.
Encadernação: Abril S.A.
Sem ISBN. 270 páginas.

O Assassinato de Roger Ackroyd/ Christie, Agatha. Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1976.
Licença Editorial: Editora Globo S.A.
Tradução: Leonel Vallandro
Capa: Alfredo Aquino
Acabamento: Linoart Ltda.
Impressão e encadernação: Círculo do Livro S.A.
Sem ISBN. 288 páginas.

Cada um dos títulos que possuo e que usei para fazer esta análise chegou até mim de uma fonte diferente e isso explica as diferenças dos estados de conservação (dois deles estão com marcas e rasgos evidentes nas capas e a costura das páginas está começando a fraquejar). Além disso, apesar de fazerem parte da mesma coleção, podemos ver que cada um deles passou por um processo de confecção diferente e separado.  O que importa nesta análise são as semelhanças entre eles e neste quesito podemos ver que todas as capas foram criadas pelo pintor e artista plástico Alfredo Aquino e que o acabamento ficava sempre a cargo da Abril.

Alfredo Aquino é artista natural do Rio Grande do Sul e possui um extenso trabalho como pintor ao longo de sua carreira. Um dos seus trabalhos mais famosos é o livro 25 Cartões Postais: Alfredo Aquino (Editora Animae, 1995) que conta com uma série de cartões postais ilustrados por fotografias de suas pinturas e textos de Ignácio de Loyola Brandão. O trabalho realizado pelo artista em capas de vários livros da Círculo do Livro possuía sempre uma unidade: ilustrações compostas por sobreposições de recortes e silhuetas em cores chapadas e contrastantes sobre um fundo de uma cor só (ou faixas de cores). No caso da Coleção Agatha Christie podemos ver, através destes três exemplares, a presença de características marcantes nas capas de livros daquela época como a presença de rostos sobrepostos a símbolos e o uso de efeitos de ilusão de ótica (influências da arte psicodélica sessentista ainda remanescente no início da década de 70). A utilização das silhuetas é, além de uma solução inteligente para valorizar a simplicidade, uma ótima maneira de trabalhar com livros de mistério e suspense, sintetizando estes valores e atraindo para o enredo da obra. Quem leu qualquer um destes três livros pode ver que o trabalho de criação da ilustração de capa não é apenas bem resolvido como faz uma relação muito inteligente com o conteúdo de cada história. Aqui cabe exaltar a idade do artista que, nascido em 1953, tinha, na época destes trabalhos, pouco mais que 20 anos.

O acabamento de todos os livros da Círculo do Livro ficava a cargo da Abril. As ilustrações de Alfredo Aquino são impressas em papel texturizado do tipo linho sobre três placas de papel panamá (uma para a capa, outra para a lombada e outra para a contracapa. O papel panamá era da época em que este tipo de papel era bem firme e não envergava). É importante notar que o acabamento era feito a mão e isso pode ser visto pela maneira rudimentar (imprecisa) da colagem das folhas de guarda, bem como na colocação da fita de cabeceado (com cores personalizadas para cada livro). O miolo do livro era impresso em conjuntos de cadernos de três folhas simples de papel offset costurados e cobertos de cola (não se usava a cola para colar os cadernos, apenas uma fina camada para manter a firmeza da costura).

Para uma obra literária considerada clássica nada mais justo que uma tipografia clássica e convencional. A Times New Roman era a fonte mais comum em publicações pequenas em estatura e de conteúdo curto pois sua leitura funciona muito bem para livros de entretenimento já que as serifas desaceleram o ritmo da leitura, tornando-a mais contemplativa e prazerosa.

Exemplo do acabamento das fitas de cabeceado personalizadas combinando com as cores da capa.
A fonte Times New Roman era a mais comum em edições de livros da Agatha Christie até meados da década de 80.

As cores das capas desta coleção variavam de acordo com o título (nestes três temos marrom, azul e verde) e as ilustrações sempre valorizavam a utilização de cores complementares, criando contraste (azul com amarelo, verde com roxo, marrom com rosa). Em todas as capas temos o título de autoria numa tipografia de hastes finas, em caixa alta e com tipos simétricos, sempre acima do título do livro que aqui se apresenta em uma tipografia de forte influência da Bauhaus (embora com formas mais sinuosas) e toda em caixa baixa. Na lombada temos as mesmas tipografias respectivas, nas mesmas cores (brancas), mas aqui uma ao lado da outra (ainda com o título de autoria vindo antes). As lombadas todas em sentido europeu. A contracapa não possui nenhuma informação, apenas a cor base da ilustração. Clique nas imagens da galeria abaixo para conferir estes detalhes e ler informações complementares.

Os livros da Coleção Agatha Christie da Editora Círculo do Livro têm dimensões 12cm x 18cm, impressos em papel offset 85g/m³ com acabamento de capa em papel de linho sobre papel panamá. De todas as edições que já vi e li de livros de Agatha Christie, e não foram poucas, esta é de longe a mais caprichada e a que mais faz justiça ao renome da autora, que com seus personagens excêntricos e enredos intricados se tornou a autora mais vendida de todos os tempos. A capa de um livro é, antes de tudo, a embalagem de seu conteúdo. Esta coleção da Círculo de Livro nos mostra que os segredos mais sombrios das tramas mórbidas e sangrentas de uma das autoras de ficção mais influentes do séc. XX não devem ser embalados de qualquer jeito.


P.S.: Uma curiosidade interessante sobre o livro O Caso dos Dez Negrinhos é que o seu título traduzido se mantinha fiel ao título original proposto pela autora na data de publicação original da obra (Ten Little Niggers, 1939). No entanto, ao longo dos anos, o título foi considerado preconceituoso e passou por algumas modificações chegando a se chamar Dez Indiozinhos (Ten Little Indians, 1965) e até Contrato Para a Morte (em Portugal, 1948). Hoje o livro tem um título completamente diferente e que é fielmente traduzido em todas as línguas. Mas eu me recuso a escrevê-lo aqui pois, por alguma irônica e misteriosa razão, o título atual acaba cometendo o maior crime de todos os livros de mistério: estampa na capa uma frase que conta o final da história e desvela o segredo do suspense! Sim, isso mesmo. Para quem não se aguentar de curiosidade e quiser saber qual o título atual do antigo O Caso dos Dez Negrinhos, é só CLICAR AQUI por sua conta em risco! Depois não diz que eu não avisei.

Muito obrigado pela leitura.

Pedro Balduino

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