Opinião: Nenhum livro infantil quer incitar o suicídio

Esta semana, uma polêmica envolvendo a escritora Ana Maria Machado surgiu a partir de uma postagem feita por uma mãe de Recife (PE) em seu perfil no Facebook. Segundo a mãe, seu filho a perguntou “se era verdade que se engasgasse com uma maçã e ficasse sem respirar ele conseguiria ir até o encontro do seu mundo da imaginação”.

“Ele me disse que o menino do livro que estava lendo tem um amiguinho imaginário que mandou ele fazer isso, ou seja, que se ele engasgasse com uma maçã, ele acabaria com todos os problemas! Faço um apelo aos pais que conversem, monitorem e protejam seus filhos dessas estimulações perigosas que estão por toda parte…”, escreveu a mãe em sua rede social. A partir disso, uma série de compartilhamentos e comentários acusavam a autora do livro de incitar o suicídio entre crianças.

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O livro em questão é O menino que espiava para dentro publicado em 1983 com texto de Ana Maria Machado e ilustrações de Alê Abreu (famoso pelo seu trabalho no filme O menino e o mundo). O trecho ao qual se refere a infantil interpretação do jovem leitor cuja repercussão gerou a polêmica é o seguinte:

Desta vez ele teve mesmo que esperar. Como as compras só chegaram quando ele estava no colégio, ainda teve que esperar a volta, o jantar e a hora da sobremesa. Quase não aguentava mais. Aí resolveu que o melhor era deixar para engasgar com a maçã na hora de deitar quando estivesse sozinho. E que a família dele era tão desligada dessas coisas que era até capaz de alguém dar um tapa nas costas dele só para desengasgar, e aí estragava o plano todo.

Opinião

É curioso que a polêmica tenha emergido na semana e no mês de ações de prevenção ao suicídio e, por isso, achei importante me posicionar sobre o assunto.

A primeira vez que me deparei com o caso foi na semana passada quando recebi um comentário aqui no blog perguntando se eu não tinha vergonha de incentivar o suicídio com meus livros. Na hora eu não entendi nada, mas depois percebi que a autora do comentário sequer percebeu que eu não sou a Ana Maria Machado e que, apesar de haver um perfil biográfico da escritora publicado aqui, este blog não responde por ela.

O problema é que este comentário aparentemente aleatório e descontextualizado reflete bem o que está acontecendo: adultos com muito pouco hábito de leitura e, portanto, deficientes de senso crítico. É importante enfatizar que o livro foi publicado em 1983 e que, até hoje, não passou por reação parecida, o que reforça que esta deficiência de senso crítico, carência de hábito de leitura e este tamanho analfabetismo funcional é um problema sério e característico dos nossos tempos.

Sou solidário à mãe que tomou um susto ao receber a interpretação do filho sobre o livro lido, assim, de supetão. É normal que o ímpeto seja de prezar pela segurança do seu pequeno. No entanto, o próprio comentário da mãe (“Faço um apelo aos pais que conversem, monitorem e protejam seus filhos dessas estimulações perigosas que estão por toda parte…”) é exatamente onde se encontra a falha de sua intenção.

É importante que os responsáveis estejam cientes sobre os conteúdos literários consumidos pelos seus pequenos e que os instruam sobre a interpretação dos títulos afim de estimular o senso crítico e as habilidades de leitura. É necessário ler junto, acompanhar a leitura, explicar trechos e palavras, separar ficção de realidade e estimular a imaginação proposta pelas metáforas. É importante, inclusive, estimular o desenvolvimento de repertório literário para saber exatamente se o seu filho está pronto para ler uma obra específica e compreendê-la sozinho.

Reação da autora à polêmica

“Foi um choque; como se tivesse levado um tiro de um franco-atirador que não sei onde se escondia. Ou como se viesse passando pela rua e me caísse na cabeça uma bigorna que me achatou. É tão absurdo que a gente não sabe como reagir. Mas por outro lado, a avalanche de mensagens de apoio e carinho, num tsunami de solidariedade, me mostrou como eu não estou sozinha, e agradeço a todos”, comentou a autora.

Ana Maria Machado - foto de Bruno Veiga - Banner
Foto de Bruno Veiga

Sobre o livro, Machado conta que 1983 foi o ano de nascimento de sua filha caçula que tinha dois irmãos mais velhos. “Eu estava, portanto, às voltas com crianças de idades diferentes, sua imaginação, seus amigos, suas brincadeiras. E queria escrever sobre isso e, sobretudo, queria valorizar para os mais velhos o fato de terem mais uma irmã. Surgiu a história de um menino que gosta tanto de imaginar, que pensa em dormir muito para sonhar muito, e ser acordado pelo beijo de uma princesa (sua mãe) como a Branca de Neve, que engasgou com uma maçã, dormiu e foi acordada pelo príncipe. E no fim, ele ganha um cachorro para lhe fazer companhia real”, completou.

Ana Maria Machado, um dos principais nomes da literatura infanto-juvenil no Brasil, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), não entende o porquê de tanto alvoroço em torno do livro, após mais de três décadas de publicação. “É um mistério. Mas talvez faça parte do clima leviano, cheio de opiniões de ódio e confronto, que está nos caracterizando. Nunca tive nenhum problema com qualquer livro que tenha escrito. Por isso, como qualquer pessoa, me sinto completamente despreparada para lidar com isso”, desabafou.

Apoio à autora

A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) divulgou apoio à autora Ana Maria Machado, reconhecendo-a como “uma de nossas maiores autoras, vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen do IBBY e do Prêmio Ibero-Americano de Literatura Infantil e Juvenil da Fundação SM, e referência na literatura para crianças e jovens no Brasil e no mundo”.

A Global Editora também lançou uma nota em que esclarece “que as referências à maçã e ao fuso são alusões às histórias da Branca de Neve ou da Bela Adormecida e constituem parte integrante do universo da história, sustentando o argumento de que imaginar pode ser muito bom, mas a realidade externa se impõe. Conversar com os outros (como a mãe) é fundamental, e a afetividade que nos faz felizes está ligada a seres vivos e reais”.

Além da instituição, um grupo de amantes e estudiosos da literatura infantil e juvenil, responsáveis por sites e blogs sobre a temática, divulgaram uma carta de apoio a autora e à literatura.

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Abaixo, trechos da carta:

“Em primeiro lugar, acreditamos que uma obra literária não pode ser lida ou interpretada a partir de um fragmento descontextualizado. É necessário compreender o texto por inteiro e com isso a mensagem completa do autor. […]  É importante frisar dois pontos do final da história: 1) No fim do livro, ele é acordado pela mãe. Fica claro que a aventura foi um sonho do menino e não um caminho real para chegar ao mundo da imaginação. 2) Mesmo com as maravilhas do seu mundo interior, no fim, a aventura não dá certo, pois tudo fica escuro, já que ele não tinha mais o mundo exterior para alimentá-lo. […] Contudo, se mesmo assim a família considerar o texto arriscado, não há problemas, basta não o incluir em seu acervo. Mas é necessário abrir-se para a possibilidade de outras pessoas interpretarem de maneira diferente. […] Com esse ponto, ressaltamos a importância de o adulto acompanhar as leituras feitas pela criança e o grande valor da Mediação de Leitura e do Diálogo. A literatura em sua essência não se propõe a ter finalidade educativa, obras literárias não devem ser compreendidas como obras didáticas. […] Afirmar que ele faz uma apologia ao suicídio é o mesmo que dizer que os contos das “Mil e Uma Noites” estimulam a violência ou que “As Aventuras de Pinóquio” incitariam à mentira.  Trazemos a público neste momento, assim, nosso apoio à Ana Maria Machado e a tantos outros autores que têm suas obras mal interpretadas e nos posicionamos contra todo e qualquer tipo de movimento que possa afastar ainda mais a Literatura Infantil da sua vocação maior: a arte.”

Além deste texto, também gravei um vídeo para o canal do Ilustração Livrada no IGTV no Instagram opinando sobre o caso e você pode assistir clicando aqui.

2 comentários

  1. minha opinao ;tenho uma filha de 5 anos de idade jamais eu compraria um livro desse pra ela,por mais que nos pais orientamos nossos filho nunca sabemos na verdade oq se passa na cabeça delas uma criança sim pode tenta criar essa fantasia ,quando so e o pior acontecer ,esse livro como muitos outros teria que ser retirado do mercado,pq assim depois que acontece o pior nao da pra fazer nada.tenho fe que um dia nossos governante iram acabar com isso.

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