Análise: “América” – Robert Crumb

O livro América de Robert Crumb é um notável título do autor reconhecido por sua inteligência sagaz, senso de humor ácido e pouca piedade para críticas amargas, chocantes e sinceras. Embora não seja um dos seus principais trabalhos, é um ótimo livro para começar a conhecer o quadrinista. América foi publicado pela primeira vez em uma edição discreta, em brochura, em 1996, depois republicada com requintes pela editora Cornelius em 2004, mas só chegou ao Brasil pelas mãos da editora Conrad, em 2010. Esta última é a edição que analiso aqui. A encontrei na biblioteca do Samba Rooms Hostel quando estive em Belo Horizonte, meados do ano passado. Uma curiosidade bacana sobre esta edição é a ilustre tradução de Daniel Galera.

Crumb, Robert. América. Editora Conrad. São Paulo, 2010.
Tradução: Daniel Galera.
Capa: Paula Bernardes.
Diagramação e Letras: Lilian Mitsunaga. 
Edição: Ricardo Liberal.
Revisão: Andreia Bruno e Ricardo Kobayaski
ISBN: 9788576163930, 102 páginas.

América é um compilado de histórias curtas onde o autor nos apresenta críticas severas ao estilo de vida norte-americano e, por que não dizer, ao estilo de vida capitalista ocidental como um todo que, como o próprio livro aborda, recai sobre outros países através das investidas do neo-imperialismo das terras do Tio Sam.

Algumas histórias me atiçaram especialmente a curiosidade por causa de certas semelhanças assustadoras com o panorama político, social e intelectual que o mundo enfrenta nos últimos tempos:

1 – Em Whiteman, vemos um retrato satírico do homem branco ocidental, atormentado pelas inseguranças e pelo sentimento de impotência perante o sistema que o oprime. O figura canaliza todas as forças que ainda lhe restam em violência, racismo e lamentações narcisistas.

2 – Em Os Bombados Barra-Pesada TOMAM CONTA! assistimos ao que acontece quando uma gangue de “bombados barra-pesada” baseados em suas perspectivas machistas, militarizadas e armamentistas, decidem tomar o poder na marra! (a história é de 1986 e não se passa no Brasil de 2019, tente acreditar pois é verdade!).

3 – Quando os Negões Dominarem a América e Quando os Malditos Judeus Dominarem a América são histórias banhadas de exagero sombrio que falam sobre os evidentes comportamentos xenofóbicos e racistas do homem ocindetalóide mediano.

4 – E, finalmente, em Aponte o Dedo, Crumb se coloca na história para, sadisticamente, apontar o dedo e julgar “um dos homens mais malignos atualmente”, ninguém menos do que Donald Trump (a história é de 1989. Se ele era um dos homens mais malignos naquele tempo, imaginemos hoje). Esta é uma história muito divertida que conta com dois finais alternativos.

É possível analisar, neste último exemplo, uma característica comum à grande parte do trabalho de R. Crumb: o autorretrato, a personificação de sua figura nas histórias, como modo de assumir uma autoria sobre suas críticas.

“Cartunista underground e Herói Popular”: um falso narcisismo.
“Outro ‘quadrinho’ (entre aspas) contraprodutivo”: a auto-depreciação bem humorada.

Essa ferramenta pode ser vista aqui como um falso narcisismo que leva o autor a querer receber os louros e elogios pela sua inteligência perspicaz, mas é também constantemente desconstruída quando Crumb se introduz de maneira auto-depreciativa, dando a entender que sua opinião pode não valer mais ou menos que a opinião de qualquer outra pessoa (ou até mesmo nem valer nada). Uma coisa é certa: Robert Crumb sabe tirar sarro de si mesmo e isto se torna valor fundamental no discurso de um artista que se prontifica a apontar os defeitos irônicos de uma sociedade corrompida.

Outro ponto alto de América é esta página solitária que conta uma narrativa simples (vejo como uma referência a Magritte): um homem de frente, minúsculo perante seu carro, minúsculo perante uma parede alta de tijolos. Diferente de Magritte, Crumb não oculta o rosto do personagem, mas o expõe com traços simples, sombrio e desolado.

A coletânea América conclui com Uma Breve História da América, uma série de quadros com pouco texto verbal que, poeticamente, falam sobre o avanço da tecnologia e sobre nossas pretensões irreais para o futuro.

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O estilo do desenho de Crumb é muito simples, assim como suas técnicas. Personagens roliços que lembram figuras de desenhos animados parecem surgir de referências de TV’s e quadrinhos antigas. Tudo é ilustrado em nanquim sobre papel usando diferentes canetas bico-de-pena e sofisticadas técnicas de contrastes e sombreamentos com hachuras.

A capa adaptada por Paula Bernardes (conhecida por adaptações de capas de quadrinhos) é uma versão simples e colorida digitalmente da primeira ilustração que encontramos ao abrir o livro, o pórtico de entrada da história Vamos falar sério sobre isso aqui: A América Moderna, uma imagem que ilustra perfeitamente a imponência e a decadência do império norte-americano. A ilustração e o título desenhados sobrepõem um discreto fundo bege. A lombada e a contracapa tem o fundo azul com recortes de ilustrações em negativo. Uma vinheta dentro de um círculo redondo apresenta um recorte de um dos autorretratos de Crumb presentes no livro. O texto da contracapa é um compilado de críticas sobre a obra e, abaixo, podemos ver duas ilustrações montadas, cercando o selo de Quadrinhos Adultos da editora Conrad. Logo da editora no canto inferior esquerdo e código de barras na direita.

América de Robert Crumb tem dimensões 28cm x 22cm, com miolo impresso em preto-e-branco em papel offset 90g/m³ e encadernado em brochura com capa e contracapa em papel cartonado fosco e colorido.

Muito obrigado pela leitura,

Pedro Balduino

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